Pequenas reflexões sobre o caos urbano em que vivemos.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Primeira história
O Andantis urbanus é, hoje, uma espécie em extinção.
Há muito tempo atrás, quando deixaram de viver em pequenos grupos isolados e passaram a viver em grandes aglomerações – alguns teóricos evolucionistas marcam este momento como o real nascimento da espécie urbanus -, as quais eles denominam “cidade”, eles eram dominantes. A “cidade” é um local confuso, mal cheiroso, cuja ética é pautada por códigos de condutas questionáveis. Mas os Andantis consideram-nas bem organizadas e higiênicas. Em suma, um local ideal para se viver.Tudo era tranqüilo e pacífico na existência dos urbanus até o momento em que o gênero Mecanicus apareceu nas “cidades”. De início surgiram os poderosos Velocipeds Mecanicus ; seres quadrúpedes, velozes, muito pesados e que andam em bandos enormes, aparentemente bem organizados. E isso foi mau.
Depois, muito mais tarde, surgiu o pequeno Agilitis Mecanicus. Bípede, ágil e capaz de adentrar locais inimagináveis devido ao seu pequeno porte. Apesar de sua aparência inofensiva é perigosíssimo, e possuidor de um sonoro rugido.
Do último, trataremos mais tarde, respeitando a teoria evolucionista de Darwin.
De volta ao nosso pequeno epitáfio: com a chegada dos Velocipeds Mecanicus alguns observadores menos atentos, decretaram o fim dos Andantis. Outros, mais espertos e de grande feitio empreendedor, viram ali uma ótima oportunidade de ganhar o que os Andantis denominam “dinheiro”. Um destes, quiçá o mais astuto deles - John Ford - começou a criar seres daquela malévola espécie em cativeiro. Com um pouco de trabalho e muita destreza, desenvolveu uma apurada técnica reprodutiva dos Velocipeds Mecanicus, fazendo com que a população destes seres crescesse exponencialmente em pouco tempo de confinamento. Uma vez nascidos Ford aprontava outra de suas várias equipes de trabalho para adestrá-los. O empresário, de grande coração e louvável bondade, queria que os Andantis Urbanus utilizassem seus Velocipeds adestrados para o difícil e rotineiro desafio de locomover-se nas cada vez maiores e mais caóticas “cidades”.
Esse novo nicho empresarial logo se tornou um sucesso. Vários outros Andantis começaram a praticar e desenvolver ainda mais as técnicas criadas por John Ford. Ele, por seu pioneirismo, teve seu nome associado a este modo de criação e adestramento dos Velocipeds Mecanicus, o fordismo. Em pouco tempo, os Andantes - nome vulgar dos Andantis Urbanus - abandonaram as raízes de seu nome e passaram a locomover-se majoritariamente com os Velocipeds adestrados. Novas cores, tamanhos, formatos, utilitários e acessórios passaram a ser desenvolvidos, a partir do domínio de avançados procedimentos da engenharia genética. Tudo isso para dar mais comodidade e conforto aos usuários dos Velocipeds Mecanicus.
Com tamanho sucesso, a população dos Velocipeds passou a crescer vertiginosamente. O sonho de todo Andante era ter seu próprio Velocipeds. Alguns Andantes chegavam a ter mais de um apenas para si!, mesmo sabendo que não teriam como aproveitar de todos ao mesmo tempo. Devido à esse frenesi em torno dos Velocipeds surgiram problemas de locomoção. Principalmente a falta de espaço nas ruas - lugares das “cidades” destinado ao trânsito destes vigorosos seres. Alguns Andantes de mente brilhante passaram a aplicar as mesmas técnicas desenvolvidas por Ford com outros seres, nossos velhos amigos da introdução: os Agilitis Mecanicus. Bravo! Mais um sucesso de vendas! Devido à falta de espaços aqueles que necessitavam de agilidade e rapidez passaram a comprar Agilitis. Agora, alguns Andantes que não tinham acesso a Velocipeds podiam também entrar na rápida corrida da vida utilizando Agilitis. Bela medida de inserção social!
Tudo ia muito bem e caminhava, ou melhor dizendo, corria velozmente em direção a um final feliz. Mas neste mundo fantástico das “cidades”, quase um conto de fadas, nem tudo se dava perfeitamente. Um belo dia um vírus desconhecido passou a assolar os seres do gênero mecanicus, logo atingindo toda sua população. O principal efeito dessa peste desconhecida foi a revolta contra seus criadores, os Andantis Urbanus. Os mecanicus passaram a mover-se de maneira agressiva, brutal e irracional; tornaram-se monstros. E o pior, contaminaram todos os donos-usuários dos Velocipeds Mecanicus e dos Agilitis Mecanicus, transformando alguns Andantes – espécie por natureza pacífica e gentil – em seres boçais, mal-educados, sem consciência e guiados por uma moral nada ética, que os orientava a tirar proveito de todas as situações, mesmo que ilegais e a passar por cima de tudo e de todos, sem um fim existente. Apenas por serem mais fortes. Apenas por diversão.
__//__
As “cidades” são hoje dominadas pelos seres contaminados por este vírus. Os Andantis Urbanus sofrem. Não podem mais exercer uma de suas atividades habituais: andar pelas “cidades”. São açoitados diariamente por Andantis contaminadus, espécie mutante que surgiu da interação entre o urbanus e o vírus Atropelados a todo o momento. Perderam seu espaço, hoje ficam restritos às calçadas. Devem andar com muito cuidado para não prejudicarem a circulação dos Mecanicus e de seus donos. E quando não o fazem, se derem a sorte de sobreviver, ainda devem agüentar barulhos de alerta e xingamentos. Parecem estar acomodados com esta situação, contudo. Atravessam a rua apenas em locais delimitados, as repugnantes “faixas de pedestres”. Isso quando essas não estão ocupadas pelos Mecanicus. Os Andantes não são respeitados por ninguém. Mas devem respeitar a todos. Por isso, estão em situação crítica.
Os Andantes são uma espécie em extinção. Salvem-nos!
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Andantes, revoltem-se! Atravessem a rua.
Há muito tempo atrás, quando deixaram de viver em pequenos grupos isolados e passaram a viver em grandes aglomerações – alguns teóricos evolucionistas marcam este momento como o real nascimento da espécie urbanus -, as quais eles denominam “cidade”, eles eram dominantes. A “cidade” é um local confuso, mal cheiroso, cuja ética é pautada por códigos de condutas questionáveis. Mas os Andantis consideram-nas bem organizadas e higiênicas. Em suma, um local ideal para se viver.Tudo era tranqüilo e pacífico na existência dos urbanus até o momento em que o gênero Mecanicus apareceu nas “cidades”. De início surgiram os poderosos Velocipeds Mecanicus ; seres quadrúpedes, velozes, muito pesados e que andam em bandos enormes, aparentemente bem organizados. E isso foi mau.
Depois, muito mais tarde, surgiu o pequeno Agilitis Mecanicus. Bípede, ágil e capaz de adentrar locais inimagináveis devido ao seu pequeno porte. Apesar de sua aparência inofensiva é perigosíssimo, e possuidor de um sonoro rugido.
Do último, trataremos mais tarde, respeitando a teoria evolucionista de Darwin.
De volta ao nosso pequeno epitáfio: com a chegada dos Velocipeds Mecanicus alguns observadores menos atentos, decretaram o fim dos Andantis. Outros, mais espertos e de grande feitio empreendedor, viram ali uma ótima oportunidade de ganhar o que os Andantis denominam “dinheiro”. Um destes, quiçá o mais astuto deles - John Ford - começou a criar seres daquela malévola espécie em cativeiro. Com um pouco de trabalho e muita destreza, desenvolveu uma apurada técnica reprodutiva dos Velocipeds Mecanicus, fazendo com que a população destes seres crescesse exponencialmente em pouco tempo de confinamento. Uma vez nascidos Ford aprontava outra de suas várias equipes de trabalho para adestrá-los. O empresário, de grande coração e louvável bondade, queria que os Andantis Urbanus utilizassem seus Velocipeds adestrados para o difícil e rotineiro desafio de locomover-se nas cada vez maiores e mais caóticas “cidades”.
Esse novo nicho empresarial logo se tornou um sucesso. Vários outros Andantis começaram a praticar e desenvolver ainda mais as técnicas criadas por John Ford. Ele, por seu pioneirismo, teve seu nome associado a este modo de criação e adestramento dos Velocipeds Mecanicus, o fordismo. Em pouco tempo, os Andantes - nome vulgar dos Andantis Urbanus - abandonaram as raízes de seu nome e passaram a locomover-se majoritariamente com os Velocipeds adestrados. Novas cores, tamanhos, formatos, utilitários e acessórios passaram a ser desenvolvidos, a partir do domínio de avançados procedimentos da engenharia genética. Tudo isso para dar mais comodidade e conforto aos usuários dos Velocipeds Mecanicus.
Com tamanho sucesso, a população dos Velocipeds passou a crescer vertiginosamente. O sonho de todo Andante era ter seu próprio Velocipeds. Alguns Andantes chegavam a ter mais de um apenas para si!, mesmo sabendo que não teriam como aproveitar de todos ao mesmo tempo. Devido à esse frenesi em torno dos Velocipeds surgiram problemas de locomoção. Principalmente a falta de espaço nas ruas - lugares das “cidades” destinado ao trânsito destes vigorosos seres. Alguns Andantes de mente brilhante passaram a aplicar as mesmas técnicas desenvolvidas por Ford com outros seres, nossos velhos amigos da introdução: os Agilitis Mecanicus. Bravo! Mais um sucesso de vendas! Devido à falta de espaços aqueles que necessitavam de agilidade e rapidez passaram a comprar Agilitis. Agora, alguns Andantes que não tinham acesso a Velocipeds podiam também entrar na rápida corrida da vida utilizando Agilitis. Bela medida de inserção social!
Tudo ia muito bem e caminhava, ou melhor dizendo, corria velozmente em direção a um final feliz. Mas neste mundo fantástico das “cidades”, quase um conto de fadas, nem tudo se dava perfeitamente. Um belo dia um vírus desconhecido passou a assolar os seres do gênero mecanicus, logo atingindo toda sua população. O principal efeito dessa peste desconhecida foi a revolta contra seus criadores, os Andantis Urbanus. Os mecanicus passaram a mover-se de maneira agressiva, brutal e irracional; tornaram-se monstros. E o pior, contaminaram todos os donos-usuários dos Velocipeds Mecanicus e dos Agilitis Mecanicus, transformando alguns Andantes – espécie por natureza pacífica e gentil – em seres boçais, mal-educados, sem consciência e guiados por uma moral nada ética, que os orientava a tirar proveito de todas as situações, mesmo que ilegais e a passar por cima de tudo e de todos, sem um fim existente. Apenas por serem mais fortes. Apenas por diversão.
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As “cidades” são hoje dominadas pelos seres contaminados por este vírus. Os Andantis Urbanus sofrem. Não podem mais exercer uma de suas atividades habituais: andar pelas “cidades”. São açoitados diariamente por Andantis contaminadus, espécie mutante que surgiu da interação entre o urbanus e o vírus Atropelados a todo o momento. Perderam seu espaço, hoje ficam restritos às calçadas. Devem andar com muito cuidado para não prejudicarem a circulação dos Mecanicus e de seus donos. E quando não o fazem, se derem a sorte de sobreviver, ainda devem agüentar barulhos de alerta e xingamentos. Parecem estar acomodados com esta situação, contudo. Atravessam a rua apenas em locais delimitados, as repugnantes “faixas de pedestres”. Isso quando essas não estão ocupadas pelos Mecanicus. Os Andantes não são respeitados por ninguém. Mas devem respeitar a todos. Por isso, estão em situação crítica.
Os Andantes são uma espécie em extinção. Salvem-nos!
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Andantes, revoltem-se! Atravessem a rua.
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